27 de janeiro de 2011

Um pouco sobre a Comunidade Quilombola dos Negros do Riacho



Nos últimos anos, vem ocorrendo, em todo o Brasil, uma mobilização das comunidades negras rurais, que gradativamente vivenciam processos de retomada de suas identidades quilombolas, o que significa se auto-afirmarem como grupo negro e reivindicarem o pertencimento a um determinado território e o reconhecimento por seus direitos enquanto grupo étnico.

Historicamente, o negro africano chegou à província do Rio Grande no início do século XVII, vindo de Pernambuco, para trabalhar, como escravo, nos engenhos de cana de açúcar de Cunhaú e Ferreiro Torto e, posteriormente, nos engenhos do Vale do Ceará-Mirim, de São José de Mipibu, de Goianinha e de Canguaretama. A ocupação do interior e o seu povoamento ocorreram a partir da metade do século XVII, efetivando-se durante o século seguinte, num processo marcado pelo extermínio do indígena e pelo ingresso da população negra escrava.

A terra é o bem fundamental dessas populações; é de onde se retiram os produtos essenciais para a subsistência do grupo familiar. É, ao mesmo tempo, o espaço de trabalho e o espaço onde se vive. É também o elemento unificador do grupo social, no qual se constrói a história cotidiana de homens e de mulheres, dotando-se de significados a vida e o mundo dessas comunidades negras. A historiografia e a memória dessas gentes documentam que a ocupação da terra por grupos negros configurou-se, principalmente, sob a forma de “posse” de terras devolutas, empreendida por negros escravos fugidos ou alforriados. A vida cotidiana mostra-nos o enfrentamento das dificuldades materiais de existência, as situações de discriminação e preconceitos, além dos procedimentos históricos de usurpação de suas
terras.

Estudamos duas comunidades negras rurais do Sertão potiguar — os Negros do Riacho e a Comunidade do Jatobá — que, embora possuam trajetos particulares enquanto comunidades remanescentes de quilombos, representam exemplos da problemática enfrentada pelas demais comunidades: existir enquanto grupo negro num mundo rural branco, conforme procuramos ressaltar.

Os “Negros do Riacho”, de Currais Novos, são descendentes de Trajano Lopes da Silva, um ex-escravo que se “apossou” das terras do Riacho, passando a viver ali, com sua família. Atualmente são 3,6 hectares onde vivem cerca de 150 pessoas, cuja atividade econômica é centrada na pequena agricultura de subsistência e na produção da “louça”, comercializada semanalmente na feira da sede do município. A unidade familiar é formada pela família nuclear com sua prole e caracteriza-se pela residência matrilocal e pela relação de trabalho familiar, na qual a vinculação do trabalhador aos meios de produção é mediada pela relação de parentesco.

O grupo apresenta uma divisão interna formada pelos caboclos e pelos negros, embora, para o mundo exterior, fora dos limites das terras do Riacho, essa separação não apareça. Todos são conhecidos como os “Negros do Riacho”. O grupo vivencia conflitos principalmente quando entram em jogo o direito e a disputa pela terra.

Nos últimos anos, a comunidade tem sido alvo de constantes ações políticas do pode público; no entanto, o seu bem mais fundamental — a terra — continua sem regulamentação.

A comunidade quilombola, está localizada no Estado do Rio Grande do Norte, no municipio de Currais Novos. 
 
Quem passa pela BR 226, a 12 quilômetros de Currais Novos, não pode deixar de perceber uma gigantesca panela de barro às margens da rodovia, anunciando que qualquer pessoa é bem vinda à comunidade dos Negros do Riacho. 
 
No povoado estão os afro-descendentes, de acordo com a líder da comunidade Maria José, conhecida como Pretinha, os Negros do Riacho são descendentes 
de Trajano Lopes da Silva, um ex-escravo que se “apossou” das terras do Riacho, passando a viver ali, com sua família. Atualmente são 3,6 hectares onde vivem cerca de 150 pessoas em 47 famílias, onde não há atividade econômica, apenas agricultura
de subsistência.
De acordo com Pretinha, quando a antiga líder Tereza Maria da Conceição era viva, as pessoas da comunidade trabalhavam na produção de “louça” de barro, que era comercializada semanalmente na feira da sede do município.  “Por falta de incentivo a gente não produz mais o nosso artesanato”,  reclamou Pretinha.
Em 2005, o Governo do Estado fez uma reforma em todas as casas, transformando as residentes de taipas para alvenaria. Na ocasião, também aconteceu a inauguração do sistema de abastecimento d´água com dessalinizador, que tornou a água salobra da comunidade, antes consumida pelas pessoas ali residentes, em água potável.
 
Na época, também foi firmado um convênio entre Sebrae, Estado e Prefeitura de  Currais Novos para a qualificação dos ceramistas com um “curso de designer” de cerâmica. As peças de cerâmica eram vendidas pelas mulheres na feira de Currais Novos, mas faltava comprador.
Pretinha garante que depois de tudo isso, o povoado foi esquecido pelos Poderes Públicos e os Negros pararam de fazer as peças de barro. 
Atualmente, muitas mulheres da comunidade caminha os 12 km até Currais Novos para pedir esmolas na feira livre ou nas casas. 
Sem trabalho, restava a mendicância. Por causa disso, os negros do Riacho são tidos pela população de Currais Novos como preguiçosos e violentos. “Aqui, a gente só tem esse chão seco. O nosso povo passa uma fome danada”,  desse Pretinha, com seus olhos marejado de vergonha, apelando por um punhado de dignidade.
 
Fontes
http://bit.ly/eel0IX
Professor Dr. Luiz Assunção

Arquivo do blog